quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Considerações sobre o futuro do mercado fonográfico

Há alguns anos, na área musical, o talento e a obstinação do artista não eram suficientes para incluí-lo como tal em sua classe. O artista precisava, acima de tudo, de uma oportunidade com uma gravadora.
No século passado, era comum os artistas-operários terem que abandonar seus lares em cidades periféricas rumo ao Rio de Janeiro em busca de um emprego nas gravadoras. Só um contrato lhes asseguraria sua vida como artista.
Depois do processo migratório e da aprovação da gravadora, restava a aprovação do público. A gravadora industrializava a obra do artista aos moldes do mercado e a apresentava ao público sob forma de mercadoria. Se o público aprovasse o trabalho, o lucro obtido pela mercadoria para a gravadora consagraria o artista, que quase não via dinheiro, mas ganhava o fortalecimento da sua imagem para vender os shows.
A gravadora produzia a fama do artista – ligada à moda ou “tendência” – e o artista famoso produzia o lucro da gravadora, ficando ele próprio com uma fatia mínima do bolo cujos ingredientes são dele, mas assados no forno dela.
Não havia caminho alternativo. Obrigatoriamente, o cantor ou compositor dependia das gravadoras para chegar ao grande público, só a estas pertenciam os meios de produzir, expor e lucrar com a música. A arte seguia o modelo do capital em que o artista vendia a “mão-de-obra” aos donos dos meios de produção que se apropriavam, “por direito”, da mais-valia que essa “mão-de-obra” produzia.
Este modelo persistiu durante décadas, satisfazendo as exigências históricas desse tempo. Hoje, a permanência deste modelo antigo das gravadoras se encontra em flagrante processo de decadência. As grandes gravadoras estão em colapso, numa crise que derrocará no fim dos monopólios e na democratização necessária de todos os meios dependentes da indústria fonográfica, incluindo as rádios. Três grandes golpes assumem a responsabilidade pela crise aguda no mercado das gravadoras:
A pirataria, que aplicou um grande golpe na indústria cultural roubando o único valor que lhes importava, qual seja: o lucro;
A democratização dos meios de produção da arte: hoje, com tecnologia de alto nível e baixo custo, muitos artistas produzem fonogramas de qualidade inquestionável em casa, com os próprios meios de produção, sem pagar e nem dever nada a ninguém;
A Internet, que democratizou a exposição e a publicidade das obras dos artistas independentes.
Estes três golpes somados, feriram profundamente a indústria cultural da música.
As gravadoras, que antes detinham o lucro e os monopólios dos meios de produção e divulgação, perderam tudo.
O fato é que alcançamos o momento histórico de acesso democrático às artes. Através da Internet, todos têm acesso a todas as obras publicadas gratuitamente. Os artistas e o público ganham, enquanto a indústria tenta – em vão – frear o bonde inexorável da história.
Nesta luta desesperada da indústria contra a pirataria, as gravadoras utilizam o discurso de que o artista também está sendo roubado (por outros além delas, é claro) e que se deve combater a pirataria em prol dos direitos do artista. Este vira um verdadeiro escudo em defesa da sobrevivência das gravadoras em nome da sua própria sobrevivência, sem saber que a morte delas é a sua liberdade.
Nesse antigo modelo que agoniza, a gravadora era responsável por transformar a arte em dinheiro: o artista só era remunerado pelo fonograma via gravadora ou editora detentora dos direitos autorais em cima das vendas contabilizadas das obras. A Internet não cobra ao artista pela exposição, mas também não serviu como mercado direto em que o público pague pela obra, pois a obra uma vez publicada na rede por quem quer que seja, está automaticamente exposta a todos gratuitamente. Na rede, o público não paga: a entrada é franca, ou pelos meios legais ou pela pirataria, o acesso é livre. Quem abonará o artista? “Se o público não paga, o artista não ganha!” esta é a defesa usada pelas gravadoras “em prol” dos artistas.
Defesa que não se sustenta mais em fundamento nenhum diante do novo mercado em operação.

O novo mercado da música

As mesmas causas que estão suprimindo a antiga indústria, também se encarregaram de apresentarem um novo modelo de mercado em que os artistas serão independentes, tanto na produção das obras, quanto na remuneração por elas.
O novo mercado – utilizado ainda somente pelos pioneiros – são sites que remuneram o artista de acordo com o número de downloads. A obra é disposta gratuitamente ao público no site do artista ou em um site coletivo. Cada acesso contabilizado, representa um valor a ser repassado ao artista pelas marcas patrocinadoras do site. Assim, o público tem acesso gratuito à obra e o artista é remunerado pela publicidade do site. O público não paga e o artista ganha. A pirataria será vencida pela gratuidade.
Dentre a vanguarda que desenvolve este novo mercado está a gravadora TRAMA. Além de há anos ter criado um site que abriga e expõe gratuitamente o trabalho dos artistas independentes, agora remunera estes artistas por cada download feito das suas obras. Todo mês, uma empresa – em troca de publicidade no site – dispõe uma quantia que será partilhada pelos autores das obras de acordo com o número de downloads realizados. Se a empresa dispõe R$ 10.000,00 para ser partilhado ao final do mês, e houveram 10.000 downloads no site, cada download valerá R$ 1,00. O artista que teve cem downloads de suas obras no site, receberá R$ 100,00 naquele mês. E o mais importante é que qualquer artista pode entrar neste mercado.
Isto é revolucionário não só para os artistas independentes, mas para os artistas consagrados que ainda dependem das gravadoras, para o público, para a propaganda e para todo mercado fonográfico.
Este novo mercado, que é propriedade dos artistas independentes, alcançará a todos os artistas de todos os níveis na mesma proporção em que os computadores atingirem as casas.
Os artistas independentes não serão mais a classe marginal porque todos os artistas serão independentes. A classe artística, dependente das gravadoras, não terá para quem trabalhar quando os monopólios caírem de vez e as gravadoras fecharem suas portas. Trabalharão para si mesmo. Este é o futuro certo do mercado musical fonográfico mundial. De Chico Buarque a Tiririca, todos estão condenados à independência.

Rumos possíveis do novo mercado fonográfico

Com esse novo modelo, o artista será pago pela publicidade. O acesso gratuito do público à obra do artista terá que passar pela propaganda dos patrocinadores. Alguns “artistas” – que não sabem nem o que é arte, mas bem o que é dinheiro – terão suas obras completamente fundidas à marca, com jingle e tudo. A banda Unidos Pela Grana que aparece na TV de hoje sob o jabá da gravadora, será a mesma banda Unidos Pela Grana que aparecerá na TV de amanhã com um bonezinho do seu patrocinador que paga o jabá da emissora e o download do público. No site da banda, as músicas estarão dispostas gratuitamente para o download do público financiado pela publicidade da empresa patrocinadora que exigirá da Unidos pela grana, que ande em conformidade com a marca além de ser um outdoor ambulante, como acontece com muitos atletas no mundo dos esportes.
Os verdadeiros artistas fugirão dessa “marketização”, a saída serão sites coletivos que escolherão seus critérios de ingresso e patrocínio, de acordo com a proposta dos artistas do site. Uma empresa que patrocina um site coletivo, patrocina uma proposta coletiva, não pode cobrar o artista particular, este continuará livre.

Autonomia

Diante dos problemas que poderão ser gerados com o novo mercado, deve-se criar imediatamente uma grande cooperativa nacional dos artistas, que em hipótese nenhuma pode ser estatal ou privada, com os seguintes princípios básicos:
- Organizar o mercado – que será apenas virtual – sendo responsável pela manutenção do site, captação de recursos com os patrocinadores, divisão da renda entre os artistas e todos os serviços burocráticos;
- Espaço livre e ilimitado para qualquer artista;
- A renda deve ser distribuída igualmente entre todos de acordo com o número de downloads obtido por cada um.
- A publicidade das empresas patrocinadoras deve ser para a cooperativa, a cooperativa divulga o apoio dessas empresas impedindo o contato direto do artista individual com a imagem da marca.
- Nenhum tipo de censura;

Se somarmos esses fatores, os músicos alcançarão a independência definitiva das gravadoras e a autonomia diante do novo mercado que se apresenta, mantendo a integridade da obra e do artista sem se tornarem escravos dos novos patrocinadores.
Demonstrei a derrocada do antigo modelo fonográfico que vem sendo demolido por três causas principais: a pirataria, a democratização dos meios de produção e a Internet; o surgimento de um novo mercado democrático que chegou para satisfazer às necessidades do nosso tempo; e os meios de guiar este mercado em nascimento para que não se criem novos monopólios ou fins que descaracterizem a arte (possível vítima da publicidade).

Jalu Maranhão

5 comentários:

HVB disse...

estive aqui e passei a vista no texto... depois volto e leio de verdade pra podermos debatê-lo... abração

Unknown disse...

De fato o modelo antigo do comércio fonográfico dá seus últimos suspiros. Novos modelos de comercialização e divulgação de trabalhos fonográficos surgem a cada dia.

A banda inglesa Radiohead lançou seu novo trabalho de uma forma bastante inovadora. Eles disponibilizaram as músicas na internet e o fã paga o que achar justo. Eles não estão de acordo com o modelo que põe preços individuais por faixa, o que termina fazendo com que a obra artística do álbum em questão seja fragmentada. É mais ou menos como comprar apenas o 1º movimento da 9ª sinfonia de Beethoven.

É isso aí Jalu. Piratas + Tecnologia acessível + Internet = mais artistas podendo divulgar seus trabalhos e mais público tendo acesso à cultura.

Um abraço e parabéns pela iniciativa do blog.

Rodrigo Leite

Zeca Viana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zeca Viana disse...

Eita, minha postagem anterior sumiu misteriosamente. Acho que são ao agentes de gravadoras virtuais nos sabotando! ahahuahuah Saquei o texto e acho que é por aí mesmo, só acho difícil se fazer grana mesmo com os downloads, mas o que vier é lucro.

Grande abraço Jalu!

Zeca Viana

Anônimo disse...

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